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Archive for agosto \29\UTC 2009

Dica do Alexandrino…

agosto 29, 2009 2 comentários

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A dama do lotacao

agosto 28, 2009 1 comentário

Uma das coisas que mais me chamou atencao aqui em Windhoek (pronuncia-se Winduk) e que o taxi nao e taxi, mas um lotacao. Acho que nao tinha visto isso em nenhum lugar do mundo. Achei estranho no primeiro dia porque os taxis passavam buzinando, perguntando se eu queria entrar (eles se comportam como as vans no Rio) e o carro nunca estava vazio. Mas e um carro, com sua plaquinha de taxi em cima e tudo o mais. E o preco e fixo: 7,5 dolares namibianos, aproximadamente 70 centavos de euro. Voce pode cruzar a cidade ou ir de uma esquina a outra, pelo mesmo valor. As vezes voce entra no taxi vazio e ele comeca a encher no caminho: mulheres com bebes, homens de terno, outros de chinelo. Enfim, como uma van mesmo. So que fica todo mundo apertado num carro, e muito estranho.

Nambia 26e2708 006Hoje visitei dois projetos fora de Windhoek. O primeiro e super interessante, se chama King’s Daughters, voltado para prostitutas e portadores de HIV. Ha duas ex-prostitutas que sao mecanicas de bicicleta, e parte da renda obtida com os consertos e vendas sao revertidos em um programa de apoio para prostitutas com Aids e tal.

A entrevista com Suzana, a prostituta que estava la, foi pessima. Ela nao fala ingles, so sei la eu que idioma, e era absolutamente monossilabica. Mas adorava uma foto, como voces podem perceber. Tinha um mecanico la, o Martin, que comecou como tradutor e acabou virando o personagem principal deste projeto. O menino tem 19 anos, ja participou de corridas de bicicleta e o idolo dele e o Lance Armstrong, que e uma super estrela do ciclismo mundial, para quem nao conhece. Fomos ate a casa dele para tirar as fotos e quando ele abriu a porta eis que me deparo com a seguinte cena: 10 pessoas amontoadas na salinha, vendo uma novela mexicana dublada em ingles na TV. Eram 4 adultos – 3 mulheres e um homem – e 6 criancas. Talvez eu tenha perdido a conta, mas segue a foto abaixo que nao me deixa mentir:

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Aquilo foi uma festa. Todo mundo super amavel, rindo, a gente falando sem se entender, as criancas passando a mao no meu cabelo, foi otimo. Fui tirar as fotos de Martin do lado de fora e ele tinha um montao de medalhas, um uniforme todo de ciclista, e estava amarradao no seu papel de modelo. Pelo menos esta estudando, espero que tenha sorte na vida.

OBS: As fotos do blog sao as feitas com minha camera amadora e horrivel. Guardo a camera boa que me emprestou minha amiga Mila e meu pouco talento e paciencia de fotografa para as fotos do projeto, que obviamente sao muito melhores. e eu nao apareco nas outras fotos, claro.  :) Espero que o livro saia de verdade, algumas fotos estao muito legais.

Nambia 26e2708 008No segundo projeto que visitei no dia foi que me deparei, imagino, com a tal pobreza que faz a Africa famosa em todo o mundo. O problema e que projeto estava numa favela horizontal, muito, mas muito parecida com a Cidade de Deus. Infelizmente para nos, nao me impactou tanto. Depois de quase 4 anos trabalhando no Viva Rio e visitando uma favela por semana, acho que ja vi coisa pior na nossa cidade. Aqui os barracos mais pobres sao de metal, como um pequeno conteiner. E eu ja vi no Rio gente morando em barraco de papelao.

Depois disso fui ao centro fazer coisas burocraticas, trocar dinheiro e tal. Amanha e o meu ultimo dia em Windhoek antes de comecar a viagem.

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Todas as tribos

agosto 27, 2009 1 comentário
Christoph, o poliglota

Christoph, o poliglota

Hoje fiz as duas primeiras entrevistas para o livro, ambas aqui en Windhoek. Uma com um mecanico de bicicletas de 29 anos, que fala ingles fluente, Afrikaner (a lingua do Apartheid, idioma oficial na Namibia ate a independencia do pais em 1990, e a lingua da Africa do Sul depois do ingles) e Rukwangali, a lingua nativa da tribo dele, que fica em Kavango, no norte do pais. Se fosse nosso conterraneo, Christoph seria um malandro baiano. E trabalhador, mas devagar se vai a longe. Falador, mas fala baixo e pausado. E da treinamentos em mecanica de bicicletas em toda a Namibia, porque, poliglota e boa gente, cobre as diferencas culturais e etnicas do pais inteiro.

Ja o segundo entrevistado era uma figura. Um homem grande mas que parece meio incomodo todo o tempo. Sorriso meio bobo, abertao, meio acanhado, meio timido. Com 34 anos e aparencia de 43, Teofelos ficou meio no limbo. Ate completar 14 anos o idioma oficial era o Afrikaner, que ele nao aprendeu porque saiu da escola. De la para ca, virou o ingles, que ele tambem nao fala e entende pouco. Teofelos pertence ao grande grupo etnico conhecido como Owambo, que abrange sua tribo, os Ndonga, cujo idioma e Oshindonga, que e a unica lingua que ele fala fluentemente.

Enfim, a segunda entrevista era um desafio extremo.

Para minha surpresa, Christoph, o poliglota, serviu de interprete. Mas teoricamente ele nao fala Oshindonga.

Foi quando Clarisse me explicou que cada tribo tem seu idioma ou dialeto, mas que duas pessoas de tribos distintas podem comunicar-se com bastante comodidade. Obviamente ela nao sabe como, mas acredita que todos devem ter palavras muito parecidas. Achei estranho porque sao 13 etnias diferentes reconhecidas, 5 idiomas fora o ingles e o Afrikaneer e, dentro desses 5 idiomas, ha varios dialetos. Como e que esse povo todo pode se entender, minha gente?

Enfim, hoje trabalhamos tanto que deixei essa questao de lado, ao menos de momento. Com certeza ela vai ressurgir como uma bomba quando eu estiver no meio das tribos de Owamboland ou no Kavango, mas vou deixar para solucionar essa questao comunicacional in loquo, se e que havera solucao.

Em tempo: bicicleta em Oshindonga e Baskera.

E, apesar de nao querer romper a magia do imaginario popular, as pessoas que vivem fora das suas tribos se vestem como a gente.

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Meu nome e trabalho!

agosto 27, 2009 6 comentários

Finalmente consegui colocar o blog em dia. E um resumo do que ta rolando, mas acho que o essencial ta ai.

Hoje, quarta-feira, dia 26, passei uma parte da manha fazendo isso. Foi feriado aqui na Namibia, assim que fomos ao supermercado a tarde (adoro ir ao supermercado em outros paises, fico horas olhando o que as pessoas comem) e depois eu e Clarisse ficamos em casa trabalhando no roteiro da viagem, nas pessoas que vou entrevistar e nas ideias para o livro.

Amanha comeca o batente das entrevistas. Vamos comecar com pessoas daqui da cidade, para depois ir a comunidades proximas (uma viagem de um dia, ida e volta) e depois vou viajar provavelmente durante umas tres semanas direto, cruzando o pais em direcao ao norte, ate chegar a fronteira com Angola pelo centro e depois a uma estreita faixa de terra entre Zambia, Zimbabwe e Botswana. Com sorte terei conexao a cada dois ou tres dias depois que comecar a viajar, dependendo das cidades mais proximas.

Segue outra foto do centro que tirei ontem, e que nao cabia no outro post.

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A primeira impressao

Nambia 2508 003Ontem foi meu primeiro dia “ de verdade” em Windhoek. Acordei meio descolocada ainda, cheguei no corredor e a Julia – filha da Clarisse de dois anos – veio correndo e rindo na minha direcao. Criancas realmente sao o melhor do mundo em alguns momentos.

Banho e rua, sai para conhecer o entorno. Estamos na Strauss Street o Strauss Strasse, em alemao ou Afrikaner – idioma comum na Namibia que e uma “adaptacao” de um holandes muito antigo. Pelo que entendi ate agora, os holandeses foram os primeiros em chegar por aqui, depois perderam o terreno para os alemaes, que perderam a Namibia depois da Primeira Guerra Mundial para os ingleses. Por isso que aqui e uma mistura de idiomas, sendo que o ingles e a lingua oficial. Cada “tribo” ou “etnia” ou sei la como se chame isso, tem um idioma alem do ingles. Nao um dialeto, mas um idioma.

Enfim, estamos na strauss esquina com Wagner strasse e depois voce tem que passar pela Verdi Strasse – ja deu para ver que meu entorno e lirico – ate cruzar a linha do trem e chegar na downtown area.

Nambia 2508 008A Namibia e o primeiro pais em desigualdade social no mundo. O Brasil e o terceiro. Aqui a riqueza vem dos diamantes, que ja inspiraram ate filme com Leonardo di Caprio. Mas a pobreza ainda esta meio mascarada – ainda nao vi a miseria que se ve nas favelas do Rio, suponho que isso sera a partir de domingo, quando coloco o pe na estrada.

Nambia 2508 007Windhoek e uma cidade para gente com carro. Da para voce andar pela cidade, mas as distancias sao longas para quem vai a pe e super curtas para quem vai de carro. Seria como se voce estivesse nas imediacoes do Projac: ha alguns terrenos baldios, e, do lado, um predio enorme. Melhor dizendo, talvez fosse uma mistura de Barra a pequena escala com Cascadura. A cidade e pequena e tem 300 mil habitantes. E e a capital do pais.

O centro propriamente dito comeca por uma area cheia de lojas de carros, depois chega numa especie de calcadao de Madureira, com gente vendendo de tudo e mil pessoas na rua, ate chegar a uma especie de cidade cenografica, na altura da rua Fidel Castro (olha ele ai, gente! Chora cavaco!) e ali ha uma serie de lojas de artesanato e o centro de informacao para turistas. O que e mais estranho e que nas calcadas ha gente vendendo todo tipo de artesanato identico ao das lojas, so que, obviamente mil vezes mais barato.

Nambia 2508 014Nambia 2508 019Fiquei louca com as feirinhas, seguem algumas fotos para voces terem uma ideia. Chifres de animais para fazer abridor de garrafa estao na ordem do dia, ossos de tudo quanto e jeito nas pulseiras e madeira de lei em um aparador de livro por 14 euros so dois. Aqui nao tem aquele pudor da preservacao, porque os caras estao vendendo as cosas que trazem das proprias comunidades para vender para os brancos no centro.

Fiquei rodando nessas coisas de artesanato por horas, parei para comer uma especie de bolo de carne, enfim, chafurdei naquela coisa. Vi uma mulher com uma roupa daquelas africanas toda de amarelo sentada, tirei uma foto disfarcando, ate que vi uma senhora com uma roupa bastante peculiar, com um chapeu com uns chifres de tecido do lado. Ja tinha visto outras duas mulheres com o mesmo tipo de roupa pela cidade, mas nao tive reacao. Perguntei a um camelo o que era aquilo, e ele me disse que aquela era a evstimenta tipica dos Herero, umas das etnias da Namibia.

Ah, menina… para que?

Fui correndo atras da mulher, que estava acompanhada de uma mais jovem, uma especie de Beyonce Knowles entrada em carnes. A senhora se sentou num banco, me aproximei educadamente e perguntei se podia tirar uma foto, ao que a beyonce respondeu imediatemente:

BEYONCE: Fala comigo, ela nao fala ingles

EU: Queria tirar uma foto com ela, mas nao quero causar nenhum mal estar, posso tirar uma foto?

BEYONCE (agressiva): e por que voce quer tirar uma foto com ela?

EU: Porque achei bonita a forma dela se vestir, soube que e uma Hororu e nunca tinha visto antes.

BEYONCE (agressiva): Voce vai pagar a ela? Porque depois voce vai pegar essa foto e vender no seu pais, vai ganhar dinheiro com ela e ela nao vai ganhar nada!

EU (bolada): Vender o que? Eu so quero uma foto COM ela!

BEYONCE: 100 dolares namibianos (nota do autor: aproximadamente 9 euros – ao ouvir a palavra cem dolares, a senhora que nao fala ingles comeca a rir, incredula)

EU (boladissima): 100 dolares? Voce ta achando que eu sou rica?

BEYONCE: Voce e de onde?

EU: Eu sou brasileira, nao tenho dinheiro nao!

Ao falar que sou brasileira, o semblante de Beyonce muda. A tensao se dilui e ela abre um sorriso cumplice

BEYONCE: Ela ja esta nervosa, porque nunca esta perto de brancos, os brancos nao falam com ela diretamente como voce fez…

EU (sorrindo): E desde quando eu sou branca? Vai me dizer que eu pareco uma alema?

BEYONCE: ok, nao tao branca, mas voce e muito diferente, a sua pele e muito mais clara que a nossa!

Eu (sorrindo diplomatica): Pelo amor de Deus, a gente e tudo igual!

Segue a foto com a senhora Hororu. No final, Beyonce tirou a foto, fez carinho no meu braco e sorriu, desejando tudo de bom. Dei 20 dolares namibianos, porque, enfim, achei que devia dar algo.

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Nambia 2508 023Fora isso, o que me chamou atencao foi o painel luminoso no centro da cidade. Campanha para que as pessoas votem, e uma campanha contra a violencia de genero. Diz o outdoor luminoso que a cada mes duas mulheres sao assassinadas por seus companheiros na Namibia, e eles encorajam as pessoas a denunciar atraves de um disque denuncia. Fiquei impressionada. No ano passado, em toda a Espanha, 63 mulheres foram assassinadas em crimes passionais. Na Namibia esse numero se reduz a 24 ao ano. E ate hoje nao consegui encontrar nenhuma estatistica aproximada que cubra todo o Brasil. Vejamos: subdesenvolvido e algo bastante relativo…

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Welcome to Namibia

agosto 26, 2009 1 comentário

Nambia 2408 001No voo de Joanesburgo para Windhoek, de pouco mais de uma hora, comecei a jogar conversa fora com um cara que estava sentado do meu lado. Ele era angolano, falava portugues, e estava impecavelmente vestido, com um terno de risca de giz e sapatos tipo crocodilo, falando atraves de um Blackberry. Ele e o que ta de terno e duas maletinhas num trolley ai na foto. Mas o que despertou a minha curiosidade foi sua cara engracada, sua extrema magreza e que, quando ele se movia, deixava ver que a parte interior dos bolsos estava cheia de remendos. Meu companheiro de viagem (nao me lembro o nome; ele se apresentou, acho que era Jorge, entao deixemos assim) me disse que ia para Angola mas que “preferia entrar pela Namibia”. Disse que estava em Joanesburgo a negocios, que era “empresario comerciante” (?), mas que entrar por Angola as vezes era complicado. Nao entendi nada, e muito menos quando ele falou que quando vinha de Dubai era ainda mais dificil. Quando eu disse que estava muito cansada e tal, ele explicou que ele tambem, mas que ainda o esperava uma jornada de 7 horas de viagem pela frente. E sorriu com uns dentes enormes e super brancos, destacados pelo profundo negro azabache de sua pele.

Fiquei intrigadissima pela historia, mas acabei dormindo porque estava exausta. A que se dedicaria Jorge? Boa coisa nao e, com certeza, se nao entraria pela porta de frente de seu pais, como qualquer pessoa normal. Trafico de diamantes? De animais silvestres? De penicilina? (influencia do livro “O Terceiro Homem” do Graham Greene, que estava lendo nos saguoes e salas de espera).

Nambia 2408 010Fiquei um pouco tensa durante a aterrisagem porque nao rola aquilo de ver a cidade se aproximando, umas casinhas, alguma civilizacao e a pista do aeroporto. Era so uma enorme caatinga. Nao chega a ser um deserto, rola uns arbustos e um chao de terra batida amarelo. O piloto fazia umas super manobras (eles adoram essas curvas fechadas estilo Top Gun antes da aterrisagem, acho que e quando se divertem no seu trabalho) e em um momento de panico imaginei que o aviao tinha tido uma pane, que pousariamos no meio do semi deserto e esperariamos o resgate.

Nambia 2408 003Mas nao. De repente, surgiu a pista de pouso, no meio do nada. Quando aterrisamos em Windhoek, me senti em, sei la, um fotograma de “Paris, Texas”, ou em algum filme que se passam no deserto americano. Tudo bem que estava no meio da pista, mas, fora um bimotor esquecido por la, o meu era o unico aviao no aeroporto internacional de Windhoek.

Todo mundo saiu andando, como quando voce pousa no Santos Dumont. E fomos para o controle de passaportes. Eram quatro guiches, e no que eu estava havia uma senhora negra e obesa, estilo Queen Latifah antes da fama, com uns cabelos para o alto num coque super estiloso, metade dreads e metade escova. A senhora tinha uma cara muito seria e achei interessante que ela barrou a entrada de um cara que era a imagem do certinho: alto, branquissimo, camisa para dentro da calca, pastinha executivo. Impoluto. Impecavel. Sei la eu porque, ela mandou o cara para uma outra fila num reservadinho e logo depois comecou a criar problemas para um jovem negro.

Comecei a pensar em mudar de fila.

Nambia 2408 007Quando ela deixou o jovem entrar e chegou a minha vez, fiquei ate impressionada porque ela nao me perguntou nada e me deixou entrar direto. Eu tava de oculos.

Assim que sai dei de cara com Roman, que era o motorista que a Clarisse tinha contratado para ir me buscar, com uma plaquinha com o meu nome. Me senti super executiva.  :)

O aeroporto internacional de Windhoek e menor que o Santos Dumont. Troquei outros dez dolares e liguei para a minha mae, para avisar que tinha chegado viva e bem, e tirei umas fotos do aeroporto e da vista do caminho ate a cidade (o aeroporto esta a 40km ao sul de Windhoek). Entrei no carro e aqui eles dirigem do lado contrario, como na Inglaterra.

Roman veio me contando coisas sobre a cultura, as tribos e vendendo seu peixe de guia turistico. Cheguei na casa da Clarisse, tomei um banho e chapei. A noite nos vimos, colocamos a conversa em dia, fizemos a janta e dormi de novo: tive um sono inconstante, uns pesadelos e acordei as nove da manha, meio descolocada.

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De Londres a Joanesburgo

A viagem foi meio horrivel, meio boa, se e que isso e possivel. Foi meio horrivel porque fiquei super gripada na vespera, e meio boa porque os voos nao atrasaram, nao perderam a minha mala (talvez porque vim com a British Airways) nem fui parada em nenhuma alfandega com perguntas esquisitas. Alias, e incrivel o que faz um passaporte europeu. Desde que tenho a nacionalidade espanhola e o passaporte vermelho, todo mundo e so sorrisos.

Enfim, sai de casa atrasada e peguei o voo Barcelona – Londres.  Esperei tres horas e peguei o voo Londres – Joanesburgo. Voo longo mas tranquilo, aviao novo, telinha individual para voce ver seus filmes e tripulacao simpatica (incrivel). Em algum momento, quando estavamos ja voando relativamente baixo, olhei pela janela e vi dunas enormes e uma imensidao vermelha, que imagino fosse o deserto do sul da Namibia. Visto de cima e impressionante, parece aquelas imagens de Marte que saem no Discovery Channel. Mais uma vez pensei que se eu pudesse escolher um poder seria o do teletransporte. Poderia estar naquela duna la embaixo, naquele exato momento, passear pelo deserto por 5 minutos e voltar para o aviao.

Enfim.

Quando cheguei no aeroporto de Joanesburgo comecei a perceber que estava longe de casa.

Coluna do meio!

Coluna do meio!

No saguao do aeroporto, as lojas exibiam peles de animais, inteiras, enoooormes, o que quase me deu um infarto no meu lado de ativista do Greenpeace. A de zebra, da foto abaixo, foi retirada tao perfeitamente do bicho que conservava a crina e os buraquinhos dos olhos intactos. Uma estatua grande de papel mache do Nelson Mandela meio que sorria para os visitantes. Entrei na lojinha e surtei: todos aqueles artesanatos, colares, pulseiras, imagens, roupas, sei la, tudo o que voce encontra naqueles editoriais de revistas femininas com tema “Inspiracao Africa” e que custam uma baba. Umas coisas tao lindas que fiquei embasbacada.

Por mais que voce queira ser politicamente correto e fingir que nao existem diferencas (nao sei se isso seria ser politicamente correto, hipocrita ou debil mental, mas enfim), e impossivel nao perceber a questao racial na Africa do Sul. E isso que eu estou falando do aeroporto, nao coloquei o pe na cidade. Muitos negros e um numero consideravel de brancos no aeroporto. Os negros muito negros e os brancos muito, mas muito brancos. Todos os funcionarios de limpeza, garcons e atendentes eram negros. A maioria dos que estavam nos check-ins eram brancos.

Nambia 2508 028Troquei 10 dolares para tomar um cafe, e me deram ja nao me lembro quantos ruands. Fui para a cafeteria e tive uma impressao estranha, de que as pessoas ali tem um jeito de te tratar onde se mostram um pouco submissas. Eu to longe de ser branca, mas ao verem que voce nao e negro e e estrangeiro, te tratam com uma deferencia esquisita. Nao e questao de educacao e amabilidade, o que se agradece em qualquer situacao e em qualquer lugar do mundo. Me  pareceu um pequeno resquicio de submissao. E, enfim, nao era isso o que queria Nelson Mandela.

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Antes da viagem

Foram alguns momentos de tensao. Meu irmao achou que eu estava maluca, Diego me apoiou incondicionalmente (ainda que no comeco tambem tenha ficado meio bolado com a ideia) e foram alguns meses de planejamento. Tinha que pedir demissao do trabalho, juntar algum dinheiro e, segundo o setor de Medicina Tropical do Servico de Saude Espanhol, tomar cinco vacinas. Tetano, Tifo, Colera, Hepatite e raiva. A de raiva nao tinha, entao e melhor eu nao chamar nenhum leao de gatinho. To fazendo tambem a profilaxis (enfim, tratamento previo) para a malaria. Mas aqui nao tem febre amarela.

Apesar dos meus 34 anos, o meu maior medo era contar para a minha mae. Deixei para contar na sexta-feira, e ia viajar no domingo. Achava que ela ia querer me matar. Ou pior, que fosse chorar e eu fosse me sentir extremamente culpada. Depois do susto inicial, a reacao dela foi otima: “Voce sempre gostou de viver perigosamente, ne minha filha? Mas voce ja e adulta e sabe o que faz”. Adorei.

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Comecando atrasada…

…e sem acentos. Esse teclado e em ingles e, como sou bastante toupeira, nao sei como configurar esse troco. Enfim, da para entender e isso e o que importa.

A ideia aqui e contar um pouco dessa viagem que estou fazendo, de exatos 37 dias, atraves da Namibia.  Para quem nao sabe, a Namibia e um pais que fica no sudoeste da Africa, acima da Africa do Sul e abaixo de Angola.

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Como eu vim parar aqui

Minha vontade de vir para a Africa e antiga, mas engana-se quem pensa que para fazer trabalho voluntario por aqui basta ter vontade. Hoje em dia voce precisa ter um master ou pos-graduacao em Gestao de ongs e Cooperacao internacional, alem de falar ingles, frances, espanhol e ter disponibilidade para ficar de 6 meses a um ano no pais que eles te mandarem, fora ser aprovado numa bateria de exames e entrevistas – se e que consegue passar na primeira fase. Acho que e quase tao dificil quanto ser aprovado, sei la, num programa de estagiarios da Coca-cola (pelo menos eu nao conheco ninguem que trabalhe ou tenha trabalhado la).

Depois de alguns anos batendo nas portas da maioria das ONGs e levando varios naos como resposta, eis que estava no Rio passando o ultimo Natal (enfim, voces sabem que moro em Barcelona) e encontrei numa mesa do Bar Luis uma antiga conhecida, a Clarisse, atraves de minha grande amiga Leticia. Nao via a Clarisse ha milenios. Em 2004, ela foi para Londres fazer um mestrado em Gestao de Ongs na London Business School (ah malandro), e depois de trabalhar por um ano em Mocambique, conheceu o marido, um australiano chamado Michael Linke. Depois eles vieram morar na Namibia, onde criaram um programa de distribuicao de bicicletas e bicicletas ambulancia chamado Ben Bikes. Eu fiquei impressionada com o trabalho deles aqui e falei da minha vontade de vir para a Africa e tal, que se eles precisassem de um jornalista ou de qualquer tipo de voluntariado eu estaria amarradona em vir para ca.

Cheguei aqui na segunda-feira, dia 24 de agosto, ou seja, ha dois dias.

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